quinta-feira, 23 de maio de 2013

Resenha #5: Ratos e Homens - John Steinbeck



 George e Lennie são dois amigos bem diferentes entre si. George é baixo e franzino, porém astuto. Lennie é grandalhão, uma verdadeira fortaleza humana, mas com a inteligência de uma criança. Só o que os une é a amizade e a posição de marginalizados pelo sistema, o fato de serem homens sem nada na vida, sequer família, que trabalham fazendo bicos em fazendas da Califórnia durante a recessão econômica americana da década de 30.



A primeira coisa que pensei a respeito de "Ratos e Homens" não foi sobre o livro em si, mas sim sobre a edição. Minha edição da Penguin tem na capa um elogio de Nick Hornby, autor britânico contemporâneo, ao livro. Hornby diz apenas que é um livro perfeito e, mesmo sem ter lido uma linha da história de Steinbeck, achei irônico um ganhador do prêmio Nobel ser publicado décadas depois com o nome de um autor contemporâneo na capa como um chamariz.

A próxima coisa que pensei a respeito de "Ratos e Homens" foi algo parecido com "UAU!!!!". Eu não percebi, mas logo depois de virar a primeira folha eu já tinha terminado o livro e estava com a sensação mais estranha do mundo. Steinbeck foi uma experiência. Comecei achando que seria algo compatível com a noção de que clássicos são chatos e lidos apenas por dever. Quando bati os olhos na descrição do rio Salinas, logo nas primeiras linhas, eu não fazia ideia do que estava por vir. 

Edições americanas de Ratos e Homens
Logo de cara você encontra a narrativa tipicamente americana de Steinbeck. Descrições detalhadas da paisagem até que o narrador em terceira pessoa aparece como a voz de alguém que muito viu e faz o leitor sentir a história justamente em seus silêncios. É exatamente nesse baque dos "homens que ali sentaram" cortando a descrição de uma floresta que o leitor entende que, por mais apegado que ele fique à história, o livro não é somente sobre George e Lenny. É também sobre todos os homens que passaram por ali antes deles e sobre todos os que continuarão passando mesmo depois do ponto final.

A leitura e si é bem rápida, por ser um livro curto e uma narrativa agradável que te motiva a continuar. No entanto, o grande diferencial de Ratos e Homens está nos personagens. Os dois protagonistas, George e Lennie, conquistam a simpatia do leitor já na primeira cena. A amizade deles fica evidente, mas Steinbeck surpreende ao ir aprofundando-os no decorrer da história. Num primeiro momento eles são os heróis, de repente você está de cara com dois anti-heróis incrivelmente bem delineados. Não somente George e Lennie, mas também todos os personagens secundários são dúbios. Você quer torcer por eles, mas os defeitos são claros demais e você se encontra vencido pela crise de valores proposta pelo autor. 

Nesse ponto, fui automaticamente levada à Capitães da Areia, clássico de Jorge Amado que tem uma péssima recepção dentro dos EUA. É quase impossível um brasileiro não torcer por Pedro Bala e seus capitães, mas as ações dos meninos parecem injustificáveis para o público estadunidense, já que lá a cultura é sabidamente mais conservadora. Ratos e Homens retrata um sociedade excludente e em crise, fruto da Grande Depressão pós-1929. Apesar de estarem bem distantes da Bahia de Jorge Amado, é impossível não enxergar George, Lennie, Candy, Crooks e quase todos os personagens de Steinbeck como versões americanas da mesma falta de esperanças que rodeia os nossos capitães.

Algo que chama atenção na narrativa é que nenhum dos personagens fala a norma padrão da língua. Li no original em inglês e várias vezes fui obrigada a ler a fala de alguém em voz alta e rápido para conseguir entender o que ele estava dizendo. Essa variedade da fala é representada também na tradução da L&PM, mas não na do Círculo do Livro, bem mais antiga. São muitos diálogos ao longo do livro, em alguns trechos não se ouve a voz do narrador há mais de uma página, e isso colabora bastante para criar a aclimatação da história e também criar proximidade com os personagens. Nisso também se baseia a empatia que o leitor tem com os outsiders. Eles são absolutamente reais e quase palpáveis. Eles quase estão na sala com você, enquanto você repete em voz alta o pedido de Lennie, que só quer poder ter um animal de estimação para cuidar. 

A personagem mais interessante talvez seja a que sequer recebeu um nome. Conhecida apenas como "A esposa do Curley", ela se mostra uma chave na história e é facilmente mal interpretada. Suas ações são claramente prejudiciais para outros personagens - mesmo tendo um marido ciumento e descontrolado ela se insinua para os funcionários o tempo todo -, mas quem a condena como culpada seria obrigado a condenar todos os outros. Não somente George e Lennie são vítimas das circunstâncias, "a esposa do Curley" representa todo o papel que cabia a uma mulher nos Estados Unidos dos anos 1930. Ou seja, nenhum. Tudo que ela quer ou precisa é negado à ela, assim como aos outros. Então como considerá-la vilã ou pior do que qualquer outro?

A última coisa que pensei sobre Ratos e Homens foi que eu preciso relê-lo o mais rápido possível. Preciso mergulhar novamente no universo de Steinbeck e sentir novamente toda a falta de caminhos e todo o desespero que ele resolve fazer o leitor sentir. Porque é isso que Ratos e Homens faz: você termina o livro e o silêncio que se segue é opressor assim como o destino de todos aqueles que você acabou de conhecer. Os homens que por ali passaram e continuarão passando.

Nota: Esta editora gostaria de expressar a irritante dificuldade de encontrar imagens relacionadas ao livro graças à existência de uma banda de metalcore também chamada "Of Mice and Men". Uma banda ruim, por sinal.


Um comentário:

  1. Você jura pra mim que vocês não ganham nada para escrever essas resenhas? Porque, sério, deveriam. Alguém precisava recompensá-las por escreverem resenhas tão completas, que são melhores do que a maioria das que se encontra por aí. Acreditem, se não fossem boas de verdade, eu nem me daria ao trabalho de comentar - até porque eu sou preguiçoso e bem crítico quanto a esse tipo de postagem.
    O que muito me impressionou foi o esforço - bem sucedido - da Milena pra fazer uma resenha tão boa que pudesse fazer as vezes das resenhas coletivas, que tinham vários pontos de vista e tal. E você conseguiu. Ficou impecável, mesmo. Além de tudo sobre a história em si, a resenha foi desde uma impressão sua sobre ter um elogio do Nick Hornby na capa até um paralelo com Jorge Amado e, meu Deus, uma comparação entre edições (sem contar o fato de você ter lido o original)!
    E, talvez você não tivesse a intenção de causar isso, mas tive que interromper a leitura antes de terminar para procurar Ratos e Homens pra baixar (e olha que só a sinopse não tinha me empolgado muito). A minha dúvida que comentei no post passado sobre por qual livro do Steinbeck começar se resolveu! haha
    Então... parabéns pelos posts sobre Steinbeck, Milena! Que venha o próximo autor! (já veio, né, eu é que estou comentando atrasado haha)
    Beijo :)

    Nota: sua Nota me fez rir alto. :P

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